26 de jul. de 2012

- Olhos Perfeitos -

Sexta - feira, 12 de novembro de 1997. Era uma noite tranquila, como todas as outras noites. Estava chovendo, e como eu amava ficar deitada em minha cama, escutando o barulho da chuva. A chuva, que vez por outra fazia lembranças virem à tona, algumas que me faziam sorrir, e outras que expulsavam o sorriso de meu rosto. Mas, a som da chuva foi totalmente quebrado pelos gritos de dor de uma mulher. Eu fui até a janela, a abri, e vi meu pai assassinar brutalmente minha mãe com uma faca. O motivo? Eu não sei exatamente. Mas, eu vi em seus olhos, todo o ódio que ele estava sentindo. Ele não estava bêbado, pois, já se fazia 3 anos que Eddie não bebia. E lá estava o corpo de minha mãe, estendido no chão. Havia sangue jorrado na pick up, no chão, e no cercado de madeira. Eddie começou a esfaquear minha mãe. Mas, ela já estava morta, porque ele estava fazendo aquilo? Não satisfeito, ele começou a rasgar o corpo de minha mãe com a faca. Em seguida, ele começou a desfigurar o rosto dela, arrancando a pele de sua face, fazendo jorrar mais sangue em sua jaqueta de couro preta. Eddie adentrou a faca nas pálpebras de Mary, de modo que seus olhos saltassem para fora. Ele pegou os olhos dela, e os guardou no bolso de sua jaqueta de couro preta, que estava suja de sangue. E foi a partir dali que eu fechei meus olhos...
Eu não aguentava mais ver aquilo, e comecei a chorar.

Meu pai escutou meu choro, me fitou por alguns segundos, e se levantou. Seu rosto, seus cabelos e suas roupas estavam sujos de sangue. Eddie continuava a me fitar, e começou a se dirigir para a nossa casa. Rapidamente eu corri e me adentrei para o quarto de minha irmã mais nova, que devia estar dormindo. Eu me aproximei de sua cama, e lá estava ela. Eu sempre ficava admirada com a beleza que Jayne tinha. O modo como seus cabelos castanhos e ondulados escorriam pela sua face, o jeito que as covinhas se formavam quando ela sorria... Eu dizia sempre a ela, que ela parecia um anjo... Um anjo sem asas. Mas, os passos de meu pai estavam ficando mais altos, e eu devia tomar partido. Eu segurei em seus ombros, e comecei a sacudi-la.

- Jayne! Jayne! Acorde, pelo amor de Deus... Jayne! – Ela começava a abrir seus olhos
lentamente, e me fitava.
- Rose... Já é hora de ir para a escola? Jayne tinha apenas 6 anos, e se soubesse o que havia acontecido, com certeza entraria em estado de choque e não sairia do quarto. - Olha Jayne... Papai e eu estamos brincando de esconde-esconde, vamos brincar? – Eu sabia que essa era a brincadeira favorita
de Jayne, ela não negaria.

- Claro! Mas, e a mamãe? Ela vai brincar também, não vai? – Ao me tocar da pergunta, eu me lembrei das coisas horríveis que meu pai fez em minha mãe. Bem que eu tentei, mas as lágrimas vieram à tona, e Jayne percebeu que eu estava chorando. – Rose, porque esta chorando? – E os passos de meu pai começavam a ficar mais fortes. Eu peguei no braço de Jayne, sem responder sua pergunta. Ao sair do quarto, nós vimos meu pai subindo as escadas. Jayne ia correr em direção a ele, mas, eu segurei em seu braço, e fiz “não” com a cabeça. Corremos em direção a uma porta em que guardávamos alguns casacos. Eu ainda chorava, e me sentei. Jayne envolveu seus braços em meus ombros, de modo que eu apoiava meu rosto em seu ombro.
- Rose... Papai machucou a mamãe, não foi? - Eu fiquei em silencio. Como? Como uma criança de 6 anos percebeu tão rápido que algo estava acontecendo? Eu olhei para o rosto de Jayne,
e tirei o cabelo que sempre cobria seu rosto.

- Jayne... Você lembra tanto a mamãe...
- Rose, responda minha pergunta. O que esta aconte... - Eu tampei a boca de Jayne. Os passos de meu pai ficavam cada vez mais altos, e de repente, nada mais se ouvia. Dava para ver pela brecha da porta, a sombra que os sapatos de meu pai fazia. Jayne abaixou minha mão, e encostou seu dedo indicador em sua boca, compreendendo que não devíamos fazer barulho. Meu pai ficou parado em frente à porta por alguns segundos, mas, logo se ouviu um barulho vindo da cozinha, fazendo com que meu pai descesse as escadas. Eu tinha certeza que era Joe, nosso gato. Eu olhei para Jayne, e ela estava fitando o nada.
Eu sacudi seu braço, e ela me fitou.
- Jayne é o seguinte. Papai está bêbado. – ele não estava bêbado. Eu tinha certeza daquilo.

Mas, como explicar o que estava acontecendo com Eddie? Nem eu sabia o que acontecia com meu pai naquele momento. - Eu sei que fazia anos que ele não bebia, mas, ele esta bêbado. Ele tem uma faca, e se ele nos ver, ele vai nos machucar. Precisamos dar um jeito de sair daqui sem que ele nos veja, tudo bem? –Jayne assentiu com a cabeça. Eu abri porta, peguei Jayne no colo e desci as escadas silenciosamente. Quando estávamos indo em direção a porta, eu comecei a escorregar em algo. Quando eu olhei para o chão, era mais sangue... Sangue do Joe. E lá estava meu pai, fazendo a mesma coisa que fez com minha mãe em Joe. Ele também arrancou os olhos de Joe. Eu abri a porta, mas, ela fez barulho, e meu pai nos viu. Ele se levantou, e nos fitou.
– Essa não...
- Minhas filhas têm olhos tão belos...

Eu coloquei Jayne no chão, e disse a ela para correr para o porão. Ela obedeceu, e meu pai começou a caminhar, cambaleando em minha direção. Eu tentei correr em direção a porta dos fundos, para meu pai se distrair e dar tempo de Jayne se esconder no porão. Mas, eu escorreguei na poça de sangue, e não conseguia me levantar. Meu pai estava se aproximando, e escorregou na poça de sangue também, o que me deu tempo de se apoiar no corrimão da escada e me levantar. Meu pai ficou lá, no chão, sem esboçar movimento algum. Ele havia desmaiado, pois tinha batido a cabeça forte no chão. Isso nos daria mais tempo de sair daquela casa. Eu sai pela porta da frente, ainda estava chovendo forte. E ao sair de casa, me deparei com Jayne chorando em cima do corpo de nossa mãe... Eu me aproximei, puxei Jayne pelo braço, e comecei a correr com ela em direção ao portão. Jayne estava suja de sangue, e chorava muito.
- Jayne... Nós vamos sair daqui, e iremos pedir ajuda a alguém, tudo bem?
-... S-sim Rose...

Era mais ou menos umas 2:45 p.m., e devido a forte chuva, certamente nenhum dos vizinhos ouviriam. Mas, os gritos de minha mãe eram tão altos, como ninguém conseguiu ouvir? Muitas perguntas se passavam pela minha cabeça. Eu fui em direção a casa da Senhora Frances Farmer, e toquei desesperadamente a campainha enquanto gritava seu nome. Jayne ainda chorava muito, e a chuva nem ao menos dava uma diminuída. A senhora Farmer abriu a porta, reclamando um pouco.
- Oras quem será a essa... Meu Deus! O que aconteceu com a Jayne, Rose? – A senhora Farmer ficou apavorada ao ver o pijama de Jayne sujo de sangue. Eu fitei a nossa casa, torcendo para que meu pai não acordasse. A senhora Farmer nos adentrou em sua casa, e trancou a porta. Para certificar-se de que ela realmente estava trancada, pegou na maçaneta e a virou, puxando-a para si.
Estávamos seguras, por enquanto.

- Rose, o que aconteceu? ... O que está acontecendo Rose?! – perguntou à senhora Frances, que esbanjava pavor não só pelas expressões de seu rosto ou pela voz, mas pude ver pelos seus olhos o
quão desesperada estava.

- E-eu não sei... Meu pai... Está louco! E-ele matou... – eu esbravejava entre os soluços, mas algo me impediu. A sim, meu pai estava na janela nos observando. E eu não sei como. – Vai embora seu desgraçado!!! Deixe-nos em paz pelo amor de Deus!!! – Ele riu diante meu desespero. E pela janela, ele escreveu algo como “ Quero seus olhos “ e sorriu. Admito que o que me deu mais medo foi seu sorriso.
- Corram! – gritou à senhora Frances, nos empurrando para os fundos de sua casa. Ele havia visto nós correndo naquela direção, então porque correr pra lá se ele estaria nos esperando ali? Eu passei por debaixo do braço de Frances, e me adentrei a sua cozinha, puxando os gabinetes de sua pia a procura de alguma coisa cortante e leve o suficiente para imobilizar Eddie. Não encontrei absolutamente nada. Mas debaixo da pia, havia algo que chamou minha atenção. Um cutelo. Não sei porque a senhora Frances tinha aquilo, mas não era hora de questionar-se, e sim defender-se. No momento em que entrei no campo de visão de minhas companheiras, elas me fitaram com certo desespero.
– Rose... O que voc- -
- Vou defender a gente. – respondi de imediato a pergunta não terminada de Jayne. O cutelo era um pouco pesado, mas era uma questão de poucos minutos a me acostumar com o peso dele. Então, nossa atenção fora voltada... Para atrás de mim. Minhas companheiras estavam imobilizadas, e eu imaginava o porque. A fria brisa chicoteava minhas costas com força, e as gotas da forte chuva que entravam na casa de Frances pareciam queimar-me as costas. Escutava passos pesados vindo a minha direção. Jayne e Frances se afastavam enquanto eu me virava calmamente. Eu sentia minha respiração pesada. E quando finalmente me virei... Nunca senti tanto medo e desespero em minha vida. Meu pai, meu Eddie... Aqueles olhos... Não eram dele. Eram os olhos de minha mãe. Então... Aquilo explicava o motivo dele ter arrancado os olhos de minha mãe. Fiquei tão impressionada que minhas pernas ficaram pesadas, e cai de joelhos no chão. Eddie passou por mim, sorrindo sadicamente. Os meus olhos ardiam, cada lágrima que saiam deles parecia um rio de magoas. E eu fiquei apenas a escutar os gritos de dor de Jayne e Frances.
E depois, não me lembro muito bem o que aconteceu em seguida.

Na manhã seguinte acordei. Eu estava de olhos abertos, mas não via absolutamente nada, estava tudo preto. Levei minhas mãos até meus olhos, e percebi algo. Eu não tinha mais olhos. Passei a mão pelo meu pescoço, e desci em direção ao meu tórax, ao qual senti que podia enfiar a mão dentro de mim mesma. O fiz. Não sentia dor, não sentia nada. Pouco a pouco, tateei meu coração, e percebi que ele não batia mais. Senti um forte gosto de sangue pela minha garganta, mas não era sufocante, e não me causava mal algum. Eu queria poder me ver. Foi então que lembrei que em sonho alguém me disse que se eu quisesse ver como eu estava, deveria conseguir olhos. Olhos perfeitos, porque se fosse o de qualquer um apodreceria rápido. Olhos perfeitos que não deixasse um vão sequer nesses dois buracos que tenho em minha face,
ao qual deveria estar meus olhos.

E eu amei seus olhos...

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